17 de janeiro de 2008
por volta das 19:00
Ensaio técnico de uma escola de samba
Sempre fui apaixonado pelo samba e por aquilo que uma roda de samba representa: união, fraternidade e todos alí para diversos propósitos: fazer o público rir, emocionar, sambar e botar o quadril para quebrar.
Semana passada fui ao ensaio técnico de uma escola esperando ver mulata, a bateria, pessoas mandando cerveja pra cabeça (e eu no meio, claro) e aquele coro todo cantando os versos do samba-enredo. Mas não esperava ver o que vi o que acho vai marcar minha vida por um bom tempo.
Ala das Baianas. Experiência, maturidade, simpatia, samba no pé e especialmente, alegria. Como aquelas tiazinhas simpatissísimas tem alegria no rosto! E tão claro que é normal pessoas ficarem girando junto com as baianas porque querem ao menos sentir a mesma coisa que elas estão sentindo, mas tenho uma má notícia. Amigos, para termos a alegria daquelas senhoras de cabelos brancos, nós precisamos, além de diversas outras coisas, ter lutado. Isso mesmo, lutar com unhas e dentes por algo. Explico.
Reparei em uma garota que não tinha mais do que 20 anos. “porra, na ala das baianas?” Sim, na ala das baianas. Mas ela tinha um diferencial, a deficiência, melhor, deficiência mental. Não que ela fosse o centro das atenções, aliás, não vi ninguém batendo palmas ou reverenciando ela. Melhor, assim ela não se sente a ovelha negra. Bom, voltando. Comecei a olhar a cena (uma das mais belas que pude presenciar) com um olhar crítico. Ela não conseguia girar como as outras! Minha vontade era largar a galera e ir ajudar aquela garota de alguma forma, por mais que eu não saiba girar como elas, mas foda-se! Ela precisa de ajuda! Quando menos espero, surge a ajuda. Uma senhora que sai da sua posição e vai até a garota. Imaginei: agora vai! Só que a minha surpresa foi outra… aquela senhora, que largou a sua posição para ajudar a garota era nada mais, nada menos, que A MÃE DELA!!!
Não cantei mais nada e não coloquei nenhuma gota de líquido em minha boca enquanto via aquela senhora ajudando a sua filha a girar como as baianas. No olhar da senhora, era claro perceber que aquilo para filha era uma chance de mostrar que, por mais que ela possua uma deficiência, ela é capaz, ela pode desempenhar algo que seja normal para nós, seres humanos normais e que, grande parte das vezes, tomamos um mega baile desses humanos enviados por algum ser divino.
1ª tentativa – nada
2ª tentativa – 90°, quase… (torci mais por aquele giro do que quando meu time do coração foi decidir o campeonato mundial em Tóquio..)
3ª tentativa – AAAAAEEEEEEEWWWWWW!!! Boa!
Não aguentei, tive que vibrar junto daquela senhora. A garota agora girava que ninguém parava! Tinha conseguido aquilo que muitos pensavam que ela não conseguiria, ela agora era como as outras, não precisava de ninguém para ajudá-la a girar.
E no olhar da mãe via-se uma satisfação imensa, um orgulho, uma alegria que não posso descrever.
Claro, ainda tenho que lutar contra tudo e contra todos para que algo que eu queira dê certo.
Obrigado a vocês, mãe e filha, seja lá quem vocês forem. Ajudaram-me a seguir na minha caminhada e aprender que não é só a terra que gira, a vida também.
